《UMA ESTÓRIA DANATUÁ (ficção - português)》POR QUEM BATE O CORAÇÃO
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Olhei o mundo e o estranhei. No princípio fiquei raivoso, pois não havia sido eu que o modificara. Mas, então, te vi. Meu coração bateu forte quando compreendi.
- Fui eu quem lhe dei o poder sobre mim – disse ele para Allenda, que tinha os olhos postos na serra do horizonte.
Havia uma solidão ali, ela sentiu. Uma solidão no vento que movia as folhas, no marulhar do rio, no sussurro das árvores, na voz que ouvira, no seu coração que batia descompassado e esmagado.
RochaNegra segurou-a pelos ombros, fazendo-a se virar e encará-lo, os olhos fixos nos dela.
> Você sabe o que sinto. Eu quero você, Allenda. Você é aquela que domina meus dias e minhas noites. Até mesmo quando estou numa batalha é você que eu vejo e...
Havia muito carinho ali, e nobreza. Allenda se comoveu com aqueles olhos, e não pode deixar de sorrir.
- Eu o admiro, ellos RochaNegra – falou apoiando com suavidade as mãos em seus braços. – Mas é só isso. Não posso te oferecer nada mais que amizade e...
RochaNegra a puxou mais fortemente, deixando o rosto a poucos milímetros do dela.
E foi então que ela o viu, no exato momento em que Uivo se virava no alto do monte e se afastava.
Allenda se desvencilhou apressadamente de RochaNegra, que ficou observando-a desconcertado.
- O que aconteceu? – ele perguntou com a estranheza no rosto.
Allenda se virou e o encarou com meiguice.
- Não sei. Não é com você. É comigo. Deve ir agora!
- Mas, mas eu não quero ir. Eu quero ficar mais tempo com você e...
- Não há esse tempo para nós, nunca houve, RochaNegra. Eu... Sabe, não estou procurando ninguém, não quero ninguém. Por favor, vá agora!
- Não, eu quero falar com você...
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- Você não entendeu, não é mesmo? Não quero ouvi-lo, porque não há qualquer importância para mim em você. Vá embora – e sua voz tomou um tom seco e autoritário.
RochaNegra a olhou desconcertado.
Allenda o observou com cuidado, pois sabia o quanto os ellos são orgulhosos. E ser assim desprezado por uma pessoa não é algo que os agrade.
Allenda tomou uma discreta postura de defesa, os olhos atentos a todos os movimentos do outro.
RochaNegra sorriu triste.
- Não vou atacá-la, não estou nem ao menos pensando em machucá-la. Você tem um lugar especial em minha alma, e espero que aquele por quem voam seus pensamentos a mereça. O caminho é seu. Me sinto honrado por temos nos encontrado.
- A honra foi minha, RochaNegra. Até mais... – despediu com carinho, num sussurro abandonado.
Allenda ficou observando seu caminhar lento e pesado, pensativo, até que sumiu na curva do morro.
Então se virou para os lados do oriente. Seu coração doía; estava pesado, triste. O lugar todo havia se enchido de dor, ela sabia, ela sentia.
Por um tempo ficou pensando sobre o que o RochaNegra dissera, que sua alma voava por outro. Sua primeira intenção foi negar mais uma vez, mas acabou tendo que aceitar que isso devia ser evidente, para Lavareda e para muitos outros. Devagar lançou o pensamento bem para o fundo de sua alma, onde o que lhe doía deveria ficar adormecido e longe da sua consciência, porque isso não era relevante agora, como não era relevante não desejar mais ninguém. Ficaria sozinha, aguardando. Precisava desse tempo para si. Então parou, como se buscasse vozes no ar.
> Ou talvez - se disse, - devo reagir, me revoltar contra isso que cresce aqui dentro – disse apertando o centro do peito, logo retomando o caminho, voltando para junto dos seus.
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Então o viu mais à frente. Ele estava parado, os olhos postos ao longe. Assim que a viu ele girou sobre os calcanhares e ia se afastar, quando ela o alcançou.
- Eu vi você – gritou tomada de ira. – Pare de me seguir...
- Seguindo você? Mas, você é muito arrogante. Você é apenas algo ruim com que topo de quando em quando. Você e seus namorados devem ser mais cuidadosos – reclamou, se virando e se afastando.
- Mas, ele não é meu... Nós só estávamos... Ora, e quem disse que eu preciso me explicar para você?
- E quem disse que estou te pedindo explicações? – sussurrou ele à meia voz, continuando pela trilha sem se virar.
Foi muito rápido.
Uivo apenas sentiu uma mão em seu braço, girando-o, e a dor na parte superior do peito.
- Sente a dor, puma? – perguntou ela empurrando um pouco mais a ponta da flecha, que entrou alguns milímetros a mais, que empurrou um pouco mais contra o nervo.
Uivo não tirou os olhos dela.
> Sei que o ódio está crescendo, e que vai pô-lo para fora. Vamos, não me deixe esperando muito... – rilhou, empurrando mais a flecha contra seu peito.
Uivo deu um passo para trás, tirando a mão dela da flecha, tal a rapidez com que se movera. E atacou com enorme ferocidade. Allenda esquivou-se e saltou, no giro usando as costas do puma como apoio. Uivo, ao perceber o que ela pretendia fazer, girou sobre os calcanhares e levantou a mão, bloqueando a flecha que ela tentava empurrar mais uma vez contra seu peito.
Com total desprezo procurou seus olhos, a flecha rigidamente presa em sua mão.
- Por que não vai fazer alguma coisa mais útil?
- Tal como você, que fica me seguindo, tirando minha paz?
Uivo puxou a seta de sua mão e a deixou cair.
-Você, filha de Adanu, não tem qualquer importância para mim – falou em despedida enquanto virava as costas e se afastava.
Allenda sentiu um impacto frio no peito, vendo-o ir-se. Sabia que eles se estranhavam quase sempre, apesar de tanto se ajudarem. Mas, o tom da voz que ele acabara de usar a deixara confusa. Era como se tivesse ouvido algo se quebrando, e isso a desconcertara, deixando seu mundo muito estranho, até mesmo irreconhecível.
Totalmente confusa tomou a direção da aldeia, a mente silenciada, se recusando a prestar atenção na dor que estava crescendo no peito.
Então ali estava seu pai, os olhos preocupados postos em si enquanto se aproximava. Ele sabia, ela sentia. Podia não saber de tudo, mas ele sabia que algo importante estava acontecendo. Sorriu de volta, em cumprimento aquele sorriso que tanto amava. Então se abraçou nele bem apertado, sufocando o soluço engasgado.
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